“Eita porra eu tô em Pristine! Calma, Salvador! Respira! Respira!”
Era inegável que, de alguma forma, eu estava dentro de Trilha de Lágrimas. Acho que a voz misteriosa me levou até lá. Eu não tinha tempo de pensar sobre como eu fui parar naquele lugar; se eu estava realmente dentro da novel, essa era minha chance de mudar tudo! Não iria desperdiçá-la!
Analisei a catedral para me situar. A pessoa do meu lado usava um capuz escuro e estava com a cabeça baixa, e não era como se eu pudesse perguntar “Ei, quem é você?”. Mesmo que essa fosse uma pergunta válida, o que não era, não era permitido falar durante a cerimônia sem permissão da Prioresa. Se eu fizesse, chamaria uma atenção desnecessária.
Nem sabia direito quem eu era naquele cenário. Não tinha como me olhar no espelho para saber qual era a minha aparência, só sentia que meu corpo estava estranho. Diferente. Foi quando percebi os longos fios prateados que desciam pelo meu ombro. Passei os dedos pelos fios macios, um pouco incrédulo. Era fácil aceitar que eu estava na Mansão Sagrada, mas era difícil de acreditar que estava no lugar de Spes.
A vestimenta de cor escura da pessoa ao meu lado indicava que era um Sentinela, e eles só podiam participar das orações na Catedral em um único tipo de evento: um batismo. Se eu estivesse mesmo no corpo de Spes, podia concluir algumas coisas. Ao longo da novel, ele passou por dois batismos, um com Ignis sendo o seu parceiro e outro com Lux. Isso significava que eu precisava descobrir qual dos dois estava sob o capuz preto, e assim saberia em que ponto da história eu estava.
— Todos de pé — disse uma senhora de olhos intensos na casa dos sessenta anos. Ela era a Prioresa que ministrava a cerimônia. — Nossos antepassados eram pessoas que viviam em eterno pecado. Destruíram a si mesmos, os seus irmãos e até mesmo a terra onde viviam. Irritado, Deus abandonou os humanos. Sem Sua graça, o mundo foi tomado por caos, e não demorou muito para que a humanidade entrasse em decadência.
A Prioresa abaixou a cabeça, silenciou-se em sinal de respeito aos mortos, e após o que me pareceu um minuto, ela retornou a falar:
— Os animais se tornaram monstros, as terras se tornaram tóxicas, e os poucos de nós que sobreviveram ao apocalipse, nos tornamos nômades, viajando de região em região em busca de um lugar seguro, comida e proteção. Não se sabe ao certo quanto tempo vivemos assim, mas sabemos que um lobo em pele de cordeiro nos foi enviado — a Prioresa levantou a sua mão direita e uma pequena luz azul mostrava a silhueta de uma pessoa. — Um homem com poderes especiais nasceu entre os nômades, um suposto salvador chamado de Sentinela. Graças a sua habilidade de cura mágica e barreiras de proteção, os humanos puderam lutar contra bestas, tomando suas terras e tomando-a habitável novamente.
Apesar de conhecer aquela história, ouvi em silêncio e até fui surpreendido quando um pequeno sino soou, marcando uma mudança no ritmo da história.
— Era o fim da Era Nômade — cantarolaram todos em uníssono.
— O suposto anjo enviado por Deus, era na verdade um demônio — vociferou a Prioresa, fechando a mão em punho e esmagando a silhueta. — O homem, antes visto como salvador, foi o destruidor da esperança. Em uma noite sem luar, ele foi acometido por uma loucura nunca vista antes e seu poder, que não era nada sagrado, explodiu dizimando mais da metade da população e maculando as terras, tornando toda uma região inabitável. Nem plantas, nem animais, nem monstros ousavam atravessá-la.
— Assim nasceu a Floresta Morta — o canto soou mais uma vez.
— As ondas venenosas podem ser tão tóxicas quanto a radiação — era possível sentir o ódio na voz da Prioresa — O Sentinela não era um herói, era apenas um demônio enviado para terminar os planos de Deus para com a humanidade. Aqueles que sobreviveram seguiram suas vidas tentando superar as desavenças cada vez mais desafiantes, e parecia que era o fim da história dos humanos sobre a terra. A fé no Pai rancoroso morreu; apenas o amor de uma Mãe nos salvaria. Então rogamos pela Deusa Mãe em busca de esperança!
— E a Deusa nos enviou a Luz — as vozes harmoniosas estavam ficando cada vez mais sinistras.
— A Filha da Deusa caminhou entre nós — o coral usou as várias vozes como instrumentos ritmando a história. Olhei para trás, e em um tipo de sacada bem ornamentada chamada “coro alto” estavam várias pessoas com túnicas azuis. — No início ninguém acreditou em suas palavras, até que ela se sentiu dragada pela energia maligna e entrou na Floresta Morta. O pequeno grupo lamentava a perda de uma jovem em seu período fértil e foi surpreendido quando ela retornou envolta em uma luz azul. “Purifiquei a Floresta da Morte”, disse a Filha da Deusa. “Podemos voltar a viver em segurança.” O povo continuou incrédulo e ignorou as palavras dela, achando se tratar apenas de uma brincadeira.
— Então vieram as flores — entoaram os Guias mais empolgados.
— Onde antes só havia morte, nasceu um campo cheio de flores-de-lis — gostava dessa parte da história e como a flor-de-lis tornou-se o símbolo dos Guias. — O poder da Filha da Deusa foi reconhecido. E quando lhe perguntaram como ela havia purificado as toxinas, ela respondeu: “Foi um chamado da Deusa. Uma forte luz brilhou em meu peito e fui atingida pelo cansaço, então adormeci ali mesmo, e quando acordei, a energia maligna se esvaiu.” Foi assim que a primeira Guia nos abençoou. A luz brilhava em seu peito e purificava grandes regiões, permitindo que a humanidade vivesse em paz novamente.
O coral ficou em silêncio.
— Que a Deusa abençoe os Guias, as pessoas mais próximas da Sua Divindade. — o canto dos fiéis ecoou.
Era assustador todas as vezes que isso acontecia.
— Mais tarde, novos Sentinelas nasceram — a voz da Prioresa soou mais forte. — E a Filha da Deusa se mostrou capaz de purificá-los, e os demônios enviados por Deus encontraram a sua redenção. A humanidade foi presenteada com mais uma graça: o nascimento do primeiro Animal Espiritual. O Tamanduá Bandeira pertencia a Filha da Deusa e era capaz de purificar as ondas tóxicas à distância, e assim nós entregamos nossas vidas a ela. A Filha da Deusa se tornou a fundadora de Pristine e a primeira Soberana.
— Celebremos o nascimento do Culto da Luz — a cantoria pareceu chegar no auge da força.
— Hoje, no dia 7 do mês 7 do ano de 700, celebraremos e agradeceremos a vida de mais um Guia. Venha, Guia Spes, a Deusa irá te abençoar.
As pessoas de branco se sentaram, e eu imitei o movimento por instinto. Olhos cor de rubi me encararam e os lábios do Sentinela desenharam a palavra “vamos”. Naquele instante eu soube que era Ignis quem me estendia a mão para acompanhá-lo, e que eu me encontrava no início de Trilha de Lágrimas.
Segurei a mão de Ignis, e naquele instante, vi uma pequena versão dele me ajudando a subir em uma árvore. A imagem foi substituída por ele rindo ao meu lado enquanto comia mangas, se sujando por inteiro, e se transformou em nós dois abraçados enquanto eu chorava por causa de um machucado no joelho, e ele tentava me acalmar. Eram as memórias de Spes e de seus melhores momentos com o melhor amigo.
Fiquei parado por alguns segundos tentando processar tantas informações, e o segui para o que achei que seria a minha posição. No fundo da Catedral, ao lado de um Sentinela, eu me sentia mais em um casamento do que em um batismo. Antes de começarmos a caminhar, um dos Guias com túnicas brancas me entregou uma vela de sete dias azul e a acendeu.
Ignis começou a caminhar e eu o segui. Os primeiros passos foram desengonçados, aquele corpo era menor do que o que eu estava acostumado e cheguei até a tropeçar. Todos me encaravam enquanto eu atravessava o imenso corredor em direção ao altar.
Tentei me concentrar na música, que começou a tocar quando me levantei, enchendo o ambiente com as vozes do coral orquestradas por um órgão. Soavam tão sinistras que me deram arrepios. Eu sempre achei os cânticos falando de salvação, que escoavam pelas igrejas com vozes macabras, pareciam mais um presságio de mau agouro do que um tipo de adoração.
Cheguei até o altar e encontrei o olhar carinhoso e acolhedor de Ignis. Naquela situação específica, eu mais do que ninguém sabia que estava certo. Se aquele era o batismo de Spes e Ignis era o seu parceiro, só podia significar uma coisa: o hino de salvação seria de fato o prelúdio da desgraça.
Em breve, os Guias vestidos em seus mantos brancos, assim como os vitrais azuis, seriam manchados de sangue. Um portal nível S abriria no meio da abadia e ceifaria muitas vidas, inclusive a do meu futuro Sentinela. Bom, não meu, o de Spes. Eu conhecia a história bem demais e sabia exatamente onde me encontrava. Era o batismo de Spes, em seu aniversário de 21 anos. O fantástico Guia nível SS finalmente estava passando pelo último rito e poderia oficialmente se juntar à Mansão Sagrada.
Seria também o dia da morte de Ignis, e da transformação de Spes em um excluído, e eu estava disposto a mudar o destino dele também.
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