Aviso de Conteúdo
Trilha de Lágrimas é uma fantasia dark, indicada para maiores de 18 anos, e no decorrer da história você pode encontrar vários tipos de conteúdos sensíveis. Leia com cautela e se necessário, converse com alguém e busque apoio.
— Tchau, Cintia.
— Tchau, Salvador! Até segunda!
Eu adorava ouvir aquelas duas palavrinhas. Significava que o final de semana havia chegado, e eu poderia esquecer do mundo real e me perder no meu mais novo vício. Guideverse. Um universo fantástico que misturava aventura, magia e romance com uma pitada de erotismo. Bem, às vezes com mais do que uma pitada.
Entre quadrinhos e webnovels, eu já tinha lido mais de cem histórias com esse gênero, mas sempre acabava voltando para a minha história de conforto. Se bem que de conforto, não tinha nada. Trilha de Lágrimas era um doomed yaoi, um amor lindo e cativante entre dois homens que sempre terminava de uma forma trágica. Seria a sétima vez que eu iria reler, e em todas, sem falta, eu chorava copiosamente.
Após me despedir rapidamente da minha colega de trabalho, desci correndo pelas escadas para poder pegar o metrô das 18:15h. Era um dos mais cheios, já que muitas pessoas costumavam sair do trabalho às 18h, e geralmente eu o evitava. No entanto, hoje foi diferente. Eu só queria ir para casa o mais rápido possível e viver de novo o amor entre Lux e Spes.
Andei rápido e me apertei no fluxo de gente em direção ao metrô. Todo mundo queria o mesmo que eu, ou quase o mesmo: sair do trabalho o mais rápido possível e chegar ao seu destino. Enquanto o de uns seria sua própria casa ou algum bar ou festa, o meu seria Pristine, a cidade regida por Guias.
Por sorte, consegui entrar logo no primeiro vagão. Era uma pena que não tinha lugar para sentar e eu não poderia começar a minha leitura ali mesmo, então coloquei meus fones de ouvido para ouvir a playlist com as músicas que selecionei para ouvir enquanto lia Trilha das Lágrimas. Cada canção ali me lembrava de alguma cena ou da relação entre os personagens, e só de ouvi-las meu corpo se arrepiava de emoção.
Os quarenta e cinco minutos de viagem não foram tão ruins como costumava ser nos outros dias da semana, especialmente nas segundas-feiras. O ar frio do ambiente refrigerado, junto com a trilha sonora, me deixou relaxado, mesmo com toda aquela gente se aglomerando, entrando e saindo em um fluxo quase interminável. Na minha vez de sair, caminhei no ritmo da música, quase dançando entre a multidão, sentindo a melodia me guiar.
Aquela semana tinha sido exaustiva. Todo final de mês era a mesma coisa, trabalhos eram acumulados e precisavam ser resolvidos com o prazo para o dia anterior, então todos na empresa ficavam sobrecarregados, alguns mais do que outros. Eu era um daqueles com demandas infinitas, pois além de ter que fazer o meu próprio trabalho, ainda tinha que corrigir o erro alheio, ligar para os clientes e combinar novos prazos. Eu, particularmente, odiava pessoas, especialmente clientes. Infelizmente eu era bom em lidar com eles, e essa tarefa acabava sempre sobrando para mim.
Na tentativa de tirar todo esse cansaço das minhas costas, eu precisava me ausentar da sociedade, ou melhor, da realidade, e fantasiar sobre coisas que nunca aconteceriam na minha vida. Para começar, eu nunca iria me aventurar por aí lutando contra seja lá o que fosse e muito menos conseguiria viver um amor tão intenso quanto o de Lux e Spes. O mais emocionante que acontecia na minha rotina era me esquivar das pessoas no metrô lotado, e se eu tivesse sorte, um dia, eu encontraria um amor chato e tranquilo.
Chegando no meu apartamento, fui recebido pelo cheiro herbal e aconchegante, mais um sinônimo de que era realmente sexta-feira. Era o dia em que a diarista deixava meu cantinho limpo e perfumado, pronto para que eu pudesse relaxar assim que chegasse do trabalho. Conti a vontade de me jogar no sofá e só sair de lá depois que terminasse de ler minha novel favorita, e fui para o banho.
Deixei que a água lavasse uma parte do meu estresse; aquela semana tinha sido mais pesada do que o usual e eu estava à beira de um colapso. Só Trilha de Lágrimas poderia me impedir de surtar com a realidade. Essa novel esteve comigo em vários momentos importantes da minha vida adulta. Foi através dela que conheci o Guideverse. Foi durante uma releitura, em um momento crítico em que eu tinha perdido o emprego, que me fez perceber o quanto aquilo me limitava e estava na hora de ir atrás de algo melhor. Foi minha companhia quando achei que ia morrer sozinho de COVID durante a quarentena. Foi por causa dessa novel que meu conceito de homens aumentou e acabei terminando com um ex tóxico.
Ao sair do banheiro, pedi uma pizza. Vesti uma bermuda folgada e me joguei na cama. Estava pronto para reviver aquela aventura.
O final de semana passou como um raio, regado a pizza, refrigerante e lágrimas.Gritei quando eles se encontraram como se fosse a primeira vez, senti meu coração quentinho a cada troca de olhares e angustiado a cada problema que enfrentavam. E me debulhei em lágrimas ao ler o último parágrafo:
A luz virou bolhas e a esperança virou fumaça. Juntos, Lux e Spes se despediram de uma nova Pristine, onde todos sem distinção poderiam ser felizes graças ao sacrifício deles.
Fim
A cena final em que Lux, a luz, e Spes, a esperança, colapsaram juntos para destruir o sistema injusto de Pristine era lindamente devastadora, e esmagava o meu coração todas as vezes. Enquanto seus corpos ruíam, tomados pelas toxinas, eles se encontraram na interseção de seus Reinos Espirituais e compartilharam memórias felizes que tiveram. Como na vez em que Lux trabalhou dois meses como voluntário em uma fazenda só para conseguir chocolate para Spes. Quando eles dançaram ao redor de uma fogueira, sentindo-se livres da opressão de Pristine por alguns momentos. O primeiro beijo… E então, com um último beijo, prometeram que se encontrariam na próxima vida e se amariam ainda mais.
Mais uma vez devorei Trilha das Lágrimas com uma fome desigual e me peguei aos soluços, suplicando por um final diferente. Era sempre assim. Eu sabia que Spes e Lux morreriam no final, que Guias e Sentinelas conquistariam um bem maior por causa da morte deles, mas no fundo eu não conseguia parar de desejar um final feliz. O amor deles era tão lindo, eles passaram por tantas dificuldades, por que não podiam viver uma vida feliz e plena?
Estava chorando copiosamente pelo final agridoce, e mesmo sendo um ateu inveterado, me peguei rezando pela felicidade deles. Nunca imaginei que, no auge dos meus 33 anos, eu iria realmente acreditar nesse tipo de fantasia. Não era uma oração comum, era uma súplica que vinha da minha alma.
— Lux e Spes sempre foram a minha luz e esperança, foram o conforto nos piores momentos da minha vida. Por favor, alguma força divina, qualquer uma! Dê a eles um final feliz!
Aparentemente, alguém me ouviu.
— Venha e seja o nosso Salvador — uma voz suplicou em meu ouvido, baixinho.
Um halo de luz envolveu o meu corpo e fui tomado pouco a pouco. Era como se eu tivesse entrado em um caleidoscópio, com as cores se misturando de forma difusa e brilhante, e então tudo ficou escuro.
Quando abri os meus olhos, não pude acreditar no que via. Eu não estava mais no meu apartamento, e sim em um lugar mal iluminado, cheirando a cera de vela queimada. Minha visão estava meio turva e minha mente parecia não assimilar direito.
Um sonho? Será que adormeci depois de tanto chorar e estou tendo algum tipo de sonho lúcido? Mas era possível estar tão consciente a ponto de reconhecer cheiros? Cerrei meus punhos e senti a dor fina das minhas unhas contra a pele. Parecia muito real. Real até demais.
Tentei me manter calmo e entender a situação. Uma voz monótona falava coisas estranhas, no que me parecia ser latim. Espiei ao redor e vi pessoas sentadas em longos bancos de madeira, vestindo mantos brancos, assim como eu, exceto pela pessoa ao meu lado, que usava uma túnica preta com capuz. A estrutura do lugar era macabra, possuía um teto alto e côncavo, tão inalcançável quanto o céu, com um altar no centro. Devia ser uma espécie de catedral.
Os vitrais azuis sustentando a flor-de-lis estavam espalhados pelas paredes de mármore, chamando a minha atenção. Eu reconhecia aquele lugar, já tinha lido a descrição dele várias vezes e ele estava estampado na capa da minha novel preferida.
Tudo era tão vívido, macabro e encantador!
Depois de ler tantos romances com transmigração, eu tinha certeza! Eu estava na Mansão Sagrada, no coração de Pristine, dentro da novel Trilha de Lágrimas.
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