"Ao topo da montanha íngreme, uma aurora reluzente ofuscava a clareza do campo de batalha. Ao centro dessa tremenda luz, uma figura com os braços estendidos na altura da cintura recebia a energia colorida desconhecida que adentrava suas veias com afinco, fazendo-as brilhar. Essa energia vinha de todos os cantos da cidade, esvaziando os corpos daqueles que se denominavam como seguidores de Naya, o rei demoníaco. Ao meu lado, Mersin, fatigado pelo calor da batalha, se questionava como seríamos capazes de vencer, pois sua lança já estava desgastada ao extremo. A desesperança rasgava o coração daqueles que viram seu Senhor ser morto na sua frente. Por um momento, fraquejamos.
Até que, como o Sol que brilha ao meio-dia, asas cintilantes invadiram meu olhar. A figura angelical era Katharos, o guerreiro mais fiel ao nosso Mestre, com sua armadura prateada e sua espada na bainha dourada empunhada. Ele seguia junto do seu maior companheiro, Florença, que andava sobre a lava como se nada o afetasse devido à sua resistência sobre-humana. Aquela dupla era inseparável e imbatível quando a vontade persistia.
— Honrar-vos! Honrar-vos! Nosso Mestre Celestial nos deu uma missão! Não deixaremos esse ser que abusa da alma das pessoas nos submeter à opressão! — A sentença do guerreiro valente, Katharos, que seguia em frente, fazia meu sangue ferver, e ao olhar meus companheiros levantando, a ação foi mútua. Crescemos separados, mas nos unimos por Ele; vivemos por Ele, e para Ele são todas as coisas. Eu, Barnaul, Mersin, Sevilha, Paul, Lier, Leeds, Bavier, Corinto e Odesia nos unimos a Katharos e Florença em um ataque direto em Naya, que contra-atacava com fortes raios que causavam terremotos em toda a cidade. Em uma velocidade não perceptível a olho nu, Katharos voava direto para Naya, atacando-o com sua espada abençoada com os olhos do próprio Deus.
— Por Sândalo!"
(...)
— Não esqueceremos desse dia! Não esquecemos da coragem daqueles que ainda hoje nos protegem e atendem nossas orações nos privando contra o mal. Foi tudo por Sândalo! Seguiremos por Ele! — Assim, o líder da família Huberi terminava sua oratória exaltadamente de cima do altar em meio aos aplausos das doze famílias serventes reunidas na casa Buloke.
O ano era 2019, quase dois milênios haviam se passado desde a intensa Batalha no Local Prometido. Era de conhecimento de todos os habitantes do Jardim dos Desejos que as montanhas que circundam a cidade foram o palco principal dessa Grande Batalha. Um conflito cujas marcas persistem até os dias de hoje, transmitidas de geração em geração pelos descendentes dos amaldiçoados.
Dizia a lenda que, após o confronto direto entre todos os santos e o mal supremo liderado por Naya, o lado virtuoso de Sândalo emergiu vitorioso. No entanto, após o selamento do Rei maligno, todos os envolvidos foram amaldiçoados com marcas em seus punhos. Essas marcas ficaram conhecidas como "Marcas da Vontade" e assemelhavam-se a tatuagens que permaneciam apagadas até que algo despertasse nelas uma vontade tão intensa que fosse capaz de superar todos os limites.
Nesse instante, a marca cinzenta finalmente se preenchia com as cores do arco-íris, e ao seu redor surgia uma camada azul neon. Essas marcas conferiam aos portadores poderes mágicos, permitindo-lhes despertar habilidades especiais sempre que enfrentavam desafios que exigissem uma força de vontade excepcional.
Havia relatos vindos de todos os cantos do mundo sobre a infestação por essa marca, sendo raros os casos daqueles que não a despertaram, especialmente entre os membros das doze famílias serventes.
No entanto, um jovem que cursava o início do terceiro ano do ensino médio, visível herdeiro da família "Buloke" por ser o primogênito homem, ainda mantinha suas cores acinzentadas. Esse fato tornou-se uma pauta importante nas conversas das famílias, principalmente porque havia uma grande fama associada à graça de Saint-Katharos que as colocou como a "mais forte do continente". Porém, tudo isso poderia desmoronar devido à sua existência, o que contaminava seu interior a cada palavra do amigo do seu pai, Senhor Huberi.
Presentes naquela reunião essencial para o andamento normal da rotina daquela família, estavam os irmãos Buloke. No entanto, um jovem de pele morena moderada, com cabelo curto e liso, de cor preta, encontrava-se absorto em suas preces. Ele usava um terno preto sobre uma camisa social branca, complementado por uma gravata amarela, e mantinha as mãos estendidas para a frente.
— Ei! Rai... Rai... Rai! Raimundo! — Uma voz feminina sussurrada logo se eleva, puxando a manga do terno preto do jovem, que virava automaticamente, demonstrando irritação.
— Dá pra você me dar um tempo, sua peste. Não está vendo que ele está rezando?
— E agora você ficou interessado nos assuntos da igreja? Nem parece que até ontem estava reclamando que teria essa reunião. — A garota, de olhos castanhos claros, colocava a mão ao lado da boca para enfatizar sua ironia. Na verdade, ela não estava errada sobre Raimundo. Nos dias que antecederam aquela reunião bimestral das famílias, apenas reclamações permearam as reflexões noturnas de Raimundo, algo que ela mesma escutara, pois os dois compartilhavam o mesmo quarto.
— E se eu estiver? Virou minha fã número um agora para ficar prestando atenção em mim? Se manca, garota. — Em resposta ao comentário de Raimundo, a jovem de pele negra e longos cachos pretos recém-lavados, com pontas castanhas invejáveis, retrucou com um sorriso que fechava seus olhos. Seu perfil mostrava uma adolescente magra, de busto pequeno, vestindo uma blusa social verde musgo com um blazer curto preto, e uma gravata amarela por baixo. Completando o conjunto, usava uma calça verde esmeralda. Essa era Raissa Buloke, a irmã mais nova de Raimundo, estudante no mesmo colégio que ele, cursando o primeiro ano do ensino médio.
Sobrepujando o burburinho dos irmãos Buloke, que não chegava a incomodar ninguém devido à oratória carismática de Arthur Huberi, que cativava a todos com sua aparência que parecia ter sido retirada diretamente de um quadro renascentista. Seus longos cabelos loiros brilhantes e seu rosto com traços andróginos eram notáveis.
No altar, estavam os líderes das famílias Spruce, Adonis, Hammamelis, Yuchbunar, Belgorod, Buloke, Zolernia, Gilwell, Buey, Guianensis e Whistler, cada um erguendo uma taça com vinho tinto. Esse gesto simbolizava o sangue daqueles que já haviam partido e, principalmente, toda a dor que Sândalo sofreu em seus últimos dias como ser humano.
Continuando seu vigoroso discurso, que fazia parte rotineiramente daquela reunião, Arthur proferiu palavras íntimas enquanto se dirigia à sua taça, posicionada sobre a mesa à esquerda:
— Senhor, sabei que não somos merecedores de toda a luta que empreendemos em prol de nossas vidas miseráveis. No entanto, para nos purificarmos dessa marca que nos lembra de nosso pecado, em ter confiado em um Rei tirano em vez de Ti, bebemos deste vinho que representa o Teu sangue derramado. Perdoai a família Huberi por desfrutar desses poderes mágicos! Perdoai as famílias serventes por não sermos tão fervorosos em Tua palavra! — A cada sentença, parecia que o discurso ganhava mais poder, e todos no local, exceto aqueles que ainda não haviam despertado as cores de suas marcas, colocaram as mãos que seguravam os cálices sagrados em seus peitos, aguardando a frase que encerrava todo aquele discurso: — "Pela espada triunfante de Katharos, a lealdade de Florença e a sua graça, amém! Podeis beber do cálice."
De forma vertiginosa, todos os outros membros e líderes das famílias que possuíam a marca beberam, e as cores entraram em ressonância com o líquido do vinho abençoado, ganhando força com as crenças e a fé de cada um presente. Apenas Raimundo, Raissa e alguns poucos membros daquele local, que ainda não haviam despertado sua Marca da Vontade, não beberam, pois não eram considerados "pecadores ativos", diferentemente daqueles que bebiam para sua purificação.
Após o encerramento da cerimônia de purificação, com todos se cumprimentando e despedindo-se dos membros das famílias serventes, Arthur, vestindo seu terno azul desabotoado com uma camisa social branca e uma gravata azul-bebê, caminhava ao lado de sua esposa e filho em direção a Luiz Buloke, o atual líder da família Buloke. Luiz era famoso por seu empenho como grande guerreiro fiel e valente durante a Batalha no Caminho da Provação. Era um homem alto, forte e de pele morena, com cabelos curtos castanho-escuros, uma pequena franja e um cavanhaque sempre bem cuidado que completava seu queixo quadrado. Ele estava vestido com seu traje rotineiro, um elegante terno verde-esmeralda com uma gravata amarela.
— Hm... Olha só, parece que não importa o tempo, você permanece com esse teu semblante de guerreiro, Luiz. — Chamado à atenção após os elogios do loiro de olhos verdes, Luiz desviou seu olhar de baixo da pequena franja morena, enquanto sua esposa trocava palavras com o líder da família Huberi.
— E parece que você permanece com o mesmo rostinho de porcelana de dois meses atrás, Arthur.
— Fico lisonjeado, meu amigo. — Arthur falava com um sorriso que logo se transformou em uma expressão mais séria. — Mas além de falar sobre seu desempenho exemplar no extermínio daqueles loucos com espírito maligno no último mês, tenho boas novas que talvez lhe interessem.
Aproximando-se com curiosidade, querendo saber o que Arthur poderia revelar, Luiz recuou a taça de champanhe de sua boca e questionou diretamente:
— Tem a ver com o boato daqueles insanos que estão rondando a cidade?
— Bingo! Sua intuição está sempre afiada. — Arthur gesticulava com uma arma na mão com empolgação para mostrar que Luiz estava certo. Com a excitação ainda em sua voz sussurrante, ele continuou: — E também queria discutir com você sobre seus filhinhos ali.
O loiro direcionou o olhar de Buloke para seus dois filhos, que estavam ao fundo do saguão. Parecia que Raimundo estava sendo advertido pela irmã, que crescia em oposição a ele.
— É apenas comigo ou quer convidá-los para nosso papo? — retrucou o homem com seus olhos castanhos claros mais afiados do que nunca para Arthur.
— Relaxa. Relaxa. Será apenas entre nós. Seu escritório lá embaixo ainda está livre?
— Sempre. — disse o homem com confiança em sua fala, enquanto se dirigia rapidamente em direção à grande porta do salão, que já estava quase completamente evacuada pelas pessoas que haviam participado da cerimônia. Sua voz grave e marcante logo ecoou pelo local, convocando a atenção de todos.
— Ei, Sabrina! Crianças! Vamos descendo, está tudo acabado por aqui. Agora temos a honra de ter os Huberi como nossos hóspedes! Sabrina, peça à Layla para preparar um chá para o casal. Não se esqueça, crianças... — O pai do casal, que mantinha a atenção presa a cada palavra do chefe da casa, enunciou: — Façam companhia para o Gabriel.
Raimundo desviou seu olhar para o filho dos Huberi, um jovem aparentando ter dezenove anos, com cabelo loiro médio e sedoso, um corpo musculoso, vestindo um terno azul belíssimo que o destacava ao lado de seu pai e mãe naquele local.
— Hm... ele tem uma cara daquele tipinho que posta "De hoje tá pago, família" no Instagram. — Raissa debochou em voz baixa para o irmão, o que deixou seus olhos pequenos de decepção.
— Argh! Cala a boca, vai que ele escuta. Vamos logo seguir o que o pai falou.
— Ué? Mas é sério, cara. Dá uma olhadinha direito.
(...)
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