Darl não via o sol há dias.
Ou, ao menos, julgava que dias haviam-se passado. Sua percepção do tempo estava, muito provavelmente, debilitada naquele local onde nem mesmo um feixe da luz do dia penetrava.
Após serem capturados, ambos foram levados ao interior da cidade e, então, para um calabouço subterrâneo.
Apenas recebiam comida e água periodicamente, e podiam aliviar suas necessidades em um balde que também era recolhido, apesar de em uma frequência muito menor que o desejado.
Não tivera muitas oportunidades, ou vontade, de admirar a cidade enquanto eram levados ao calabouço, mas Darl pudera observar ser muito similar a Nouwer. Seus altos muros de madeira, suas dúzias e dúzias de casas, suas ruas serpenteantes, seus habitantes cujos olhos caíam profundamente no garoto assim que entrava em seu campo de visão.
Agora, contudo, estava distante de todo e qualquer olhar. Mas até mesmo isso era difícil de julgar bom ou mau.
O que era o bom e o mau, afinal?
Apesar de desconectado do vento de outono que soprava no lado de fora, o calabouço era estranhamente frio, além de úmido. Apenas estar lá era tão desagradável que o garoto queria apenas quebrar as grades e correr pelos corredores até a saída.
Obviamente, isso seria impossível — ao menos normalmente. Ele podia ser fraco, um covarde. Mas, todas as vezes que sua vida corria risco, seu corpo fora tomado por uma força que nenhum ser humano deveria ser capaz de ter em mãos.
Porém, essa força ainda não viera a seu encontro desta vez.
Não. Por que ele dependia tanto dela? Por que desejava-lhe tanto?
Nada daquilo estaria ocorrendo se não fosse por aquela força. Graças a ela, Gundar teve de abandonar seu lar, teve de perder o único amigo que aparentava ter. Graças a ela, Darl perdera seu lar e família nos bosques para as chamas.
Mas por que ele podia culpar a si mais facilmente do que a ela?
Por que havia ele naturalizado tão facilmente o mal que, algumas vezes, provara-se útil?
Sua vontade podia ser sobreposta com outra, mas sua carne ainda era a mesma. Ainda podia sentir suas mãos, sentir o calor do sangue, a vida esvair-se de quem ele tocava.
Poderia viver dessa forma ser preferível a morrer? Ainda assim, quantas mortes seriam necessárias apenas para evitar a sua?
Por que ele devia matar para viver? Por que os demais apenas não deixavam que vivesse sua vida? Eles acreditavam correr perigo enquanto Darl respirasse?
Não importava como pensasse, chegava apenas à conclusão de que, mais do que tudo, sua vida era indesejada.
Seus pensamentos foram cortados por vozes que ecoavam nos corredores mal iluminados.
— Aqueles dois estavam indo ao norte, não? —, inquiriu uma. Parecia pertencer a um guarda.
— Aham. —, confirmou outra, provavelmente pertencente a outro guarda. — Aposto que tavam a caminho de Weidmar. Aqueles nojentos Hraekhan... Com certeza iam acolher um dos seus.
— Como as pessoas lá aceitam ser dominadas por aquelas coisas?
— Dizem ter a ver com o mago do rei. Se não for medo, não sei o que é.
— Foi mesmo o Trabalho de Yahlov aquele sujeito do Oeste aparecer.
— Quando acha que vai ser a Purgação?
— Hmm... Ouvi que seria amanhã. O capitão tentou mandar os dois pra capital, mas seria perigoso demais.
— Oh... Vai ser a coisa mais interessante que aconteceu aqui em anos!
Então as vozes tornaram-se distantes demais para que pudessem ser ouvidas.
Darl queria virar-se para Gundar e perguntar sobre o que se tratava a tal "Purgação", mas tinha a impressão de que já confeccionara uma ideia suficientemente elaborada do que era.
Talvez o garoto devesse apenas aceitar o destino imposto a ele. Se os demais não podiam viver em paz enquanto ele mesmo vivesse, morrer seria o melhor favor que faria a eles.
Ainda assim, sabia que não podia ser morto. Se a voz não vinha enquanto esperava no calabouço, viria no dia da Purgação.
Mas ainda havia mais uma pessoa envolvida, uma que podia ser morta. Uma que, mais que qualquer outra, não merecia tal destino.
— Gundar... desculpa.
O homem apenas permaneceu em silêncio, como se não houvesse ouvido as palavras do garoto.
De toda forma, como poderia ele perdoá-lo?
Toda sua vida havia sido destruída desde o momento quando encontrara Darl nos bosques. Sua generosidade havia sido, certamente, mal colocada.
Ainda assim, se o ex-soldado não respondia, tornava-se mais fácil para o garoto, que nem mesmo ousava olhar para ele, transformar em palavras sua angústia. De seus olhos escorriam as amargas lágrimas com as quais estava cada dia mais familiarizado.
— Você vai... morrer por minha causa... Todo mundo morreu por minha causa... Teria sido melhor... se eu...
— Ugh...!
Como se não suportasse ouvir passivamente as egoístas palavras do garoto, o peito de Gundar saltou em mais uma crise de tosses. Não era a primeira desde que foram deixados na cela do calabouço.
Mas era, possivelmente, a pior.
Ele tossiu duas, três, meia dúzia, dúzias de vezes. Sempre que parecia parar, mais tosses tomavam o curto silêncio. Chegava o ponto que se tornavam dolorosas de ouvir, e deviam ser ainda mais para quem tossia.
Quando, após um tempo que parecia estender-se pela eternidade, cessaram, apenas a respiração pesada de Gundar podia ser ouvida.
Até que Darl, enfim, virou-se e viu.
O homem tinha as mãos no chão rochoso, o qual estava coberto pelo sangue escuro que escorria de sua boca. Sua silhueta, uma vez grande e forte, agora era esguia e fraca. Toda sua força parecia haver sido drenada de sua carne até que apenas ossos restassem.
— G-Gundar...! —, o garoto tentou aproximar-se.
— Cala... —, mas interrompeu seus movimentos ao ouvir fracas palavras deixarem a boca do ex-soldado. — essa... sua boca.
— ... Huh?
— Você só abre... a boca... pra falar besteira... —, moveu-se para o lado, e apoiou as costas contra a parede de blocos de pedra. — Igual eles... Heh...
Sob seu negro e longo bigode, as bordas dos lábios ensanguentados de Gundar curvaram-se para o alto. Foi a primeira vez que Darl via-o fazer tal expressão.
Um sorriso.
Mas aquela era a pior ocasião para tal.
Ainda assim, o homem barbudo sorria como se vivesse o mais belo e claro dos sonhos, não a mais melancólica e escura prisão.
— Gundar...?
— Leouk... Tsur... Eles tinham... mais ou menos a sua idade... Meus filhos... Mas faz... tanto tempo desde que... vi seus rostos... sem vida...
Então, também pela primeira vez observadas, lágrimas também escorreram de seus olhos.
— Tentamos tudo... Velka... minha esposa e eu... Mas nada podia salvar os dois meninos... A Praga veio... e ela nunca parte... só quando a terra já se... alimenta da carne de todos...
Seu olhar parecia distante, como se visse além das paredes que lhes cercavam. Como se observassem um mundo além daquele.
— Tentamos até a velha bruxa... mas ela morreu também... Ah, mas não pela Praga... A gente matou ela... A gente matou tanto... Eu matei porque queria ver meus meninos vivos... mas eles morreram... Não só eles... Metade da cidade morreu... Velka também... Foi ela que conseguiu o chá com a bruxa... aquele maldito chá... e pensaram que eles tavam juntas...
Então, em meio aos seus delírios, Gundar virou-se para o garoto a seu lado. Seus olhos avermelhados gritavam sentimentos dolorosamente familiares à criança que se ajoelhava próxima a ele.
— Darl... eu quero que você viva... mesmo que precise matar metade do mundo pra isso...
— Não, eu...
— A vida me ensinou que... só quem tira vidas tem o direito à sua...
— Mas e você...
Darl não queria matar. Ele não queria tirar mais vidas meramente para preservar a sua. Aquilo não fazia sentido, por mais que Gundar falasse com um tom que fizesse o ato parecer óbvio como o nascer do sol toda manhã. Ele queria apenas...
— Mesmo se quisesse, não vou passar daqui... Já não consigo ver quase nada... A Praga me pegou também... Se quiser ir pro norte, vai ter que ir sem mim...
O garoto procurava palavras, mas nenhuma encontrava. Ele queria contrariá-lo, mas nada podia fazê-lo mudar de ideia.
Ele não queria ir ao norte, não queria fugir mais. Ele apenas queria que a dor acabasse.
— Rognir contou por que matamos vocês...? Aqueles com cabelo de fogo... eles não ficavam doentes... Foi quando veio um missionário de longe... Ele disse que a Praga vinha do seu sangue amaldiçoado... Então queimamos vocês também... Que bobagem...
Darl podia apenas permanecer sentado enquanto ouvia as palavras que não queria ouvir. A cada frase, a voz de Gundar ficava mais baixa, como se, aos poucos, suas forças fossem drenadas.
— ... Obrigado...
Até que ele soltou um último sussurro, e nada mais falou até o dia seguinte.
...
Novamente com as mãos atadas, ambos foram retirados de suas celas.
A luz do dia, não vista há tanto tempo, era cegante. Quando seus olhos já estavam novamente acostumados com a luz, foram levados escada acima até uma alta plataforma de madeira.
No topo havia mais guardas, além do capitão presente no dia de sua captura e um homem com uma máscara escura de pano com largos furos para os olhos que lhe cobria até os ombros — nada como o daquele dia, com sua amarelada máscara com a cruz negra.
Além da plataforma, no nível do solo, dúzias de dúzias — incontáveis rostos. Eles vaiavam e atiravam pedras na dupla capturada.
Até que o capitão ergueu a mão, e todos pararam. Sua autoridade era indubitável.
— Estes dois indivíduos —, declarou em voz alta. — foram encontrados tentando atravessar as terras do Lorde Vengarl, seguindo ao norte. Certamente procurando por refúgio aos pés dos hereges de Hraelund.
Mais uma vez a multidão vaiou. Assim que o silêncio foi, mais uma vez, estabelecido, ele continuou.
— Graças a um homem de Yahlov, que nada pediu em troca, pudemos capturá-los e hoje trazê-los à justiça! Como vocês podem ver, a criança carrega a Marca. Nosso Lorde em sua missão divina dedicou anos a caçar essa raça demoníaca, e quando pensávamos haver, finalmente, limpado nossas terras, veja o que encontramos bem em nossa porta!
Darl já era incapaz de dar ouvidos ao homem. Era incapaz de dar ouvidos a qualquer coisa no mundo.
Ele já havia resignado-se. Qualquer que fosse seu destino, aceitaria. Apenas o prospecto de sentir dor assustava-lhe.
— Não posso ver isso de qualquer forma além da obra do próprio Padrasto! —, o capitão fez uma pausa. — Agora, povo de Lendal, que não vê uma Purgação há anos, presencie a Justiça!
Enquanto a massa comemorava em uníssono, ele saiu de cena.
Foi então que começou.
— Darl... —, Gundar virou-se e, uma última vez, disse ao garoto. — Viva.
O ex-soldado foi o primeiro. Sem qualquer resistência, ou outra palavra, ele foi levado até dois postes de madeira paralelos, nos quais, após ter as mãos desatadas e mangas arregaçadas, seus os braços foram fortemente amarrados.
O homem com a máscara de pano aproximou-se com um grande machado.
De pé, diante do condenado, ele ergueu sua arma.
E então a baixou.
No início dos tempos, pela ganância de seus Filhos, os homens, o mesmo Pai que deu-lhes suas asas, retirou-as. Então, ao ver seu estado, o Padastro deu-lhes mãos, para que, com elas, trabalhassem e merecessem suas asas novamente.
Mas essas mãos também podiam ser tomadas.
Não necessariamente por Yahlov, quem as deu, mas por outros homens.
Uma mão para ladrões, ambas para traidores.
E assim a primeira caiu.
Um grito de dor ecoou pela cidade, abafado, então, apenas pelos urros da multidão.
Era uma cena de revirar o estômago. Darl queria desviar o olhar, mas estava paralisado até os olhos.
O homem do machado e máscara abaixou e pegou a mão decepada. Então, como um troféu, ergueu-se ao ar, sangue escorrendo por seu braço.
E a sádica massa apenas urrou mais alto.
Era realmente aquela a Justiça de Yahlov?
Gundar fizera más ações aos outros no passado, mas foi quando pensava em seus filhos, e nunca fora julgado por isso. No presente, entretanto, nada de errado havia feito. Pelo contrário — dedicara suas últimas luas a ajudar um estranho, independente do preço que poderia pagar por isso.
Ainda assim, era por seus atos altruísticos que agora era punido.
Aquilo estava errado.
Aquilo devia ser interrompido.
Alguém devia fazer algo.
Mas todos ali reunidos apenas queriam ver sangue derramado.
— Por favor! —, gritou o garoto o mais alto que pôde, seus olhos ardentes com incessantes lágrimas. — É a última coisa que te peço!
Logo a segunda mão também caiu ao chão da plataforma de madeira.
— Calado! —, o guarda que segurava a corda ligada às mãos de Darl empurrou-lhe.
O garoto perdeu o equilíbrio e caiu de joelhos. Seu olhar, também, caiu.
Ele não tentou pôr-se de pé. Não havia razão. Não havia forças para tal.
Não possuía forças para causar qualquer forma de mudança positiva na vida de qualquer pessoa.
Ele era, simplesmente, impotente.
Tudo que pôde fazer foi erguer os olhos, e arrepender-se.
Havia muito sangue no chão, que escorria aos poucos dos braços de Gundar, amarrado aos postes de madeira.
Seu peito movia-se lentamente, em um ritmo quase pacíficos. Já estava sem forças para gritar, e provavelmente próximo de perder a consciência.
— É sua vez. Levanta! —, ordenou o guarda atrás de Darl, mas o garoto não se movia. — Eu, eu falei pra...
Então o vento parou.
Todo o som também cessou, como se as pessoas que até então gritavam também houvessem sentido algo fora do ordinário.
As amarras nos pulsos do garoto entraram em chamas.
— Uwah! —, quando o fogo alcançou a mão do guarda, este soltou a corda, assustado.
Então o vento voltou a soprar, desta vez, quente e seco. Ele corria em torno de Darl, em torno de quem paredes de fogo ascenderam.
Foi assim que seu corpo levantou-se. Não com os pés, mas como se o próprio ar erguesse-o.
Suas preces haviam sido atendidas.
— O-O que estão esperando?! —, gritou o capitão aos homens imóveis. — Ataquem!
Mas eles não estavam diante de um inimigo ordinário, um ao qual podiam aproximar-se e atacar com suas lanças.
Momentos atrás, viam uma criança indefesa. Agora, no entanto, olhavam diretamente para um abismo de chamas além de sua compreensão.
E esse abismo olhava de volta para eles.
Gritos foram a melodia cantada naquele dia. Vermelho e cinza foram as cores com as quais a cidade foi pintada.
Eram os gritos das pessoas que tentavam escapar, das que tinham suas vidas tomadas e corpos carbonizados. As cores eram do sangue derramado em nome da vingança e das chamas que purgavam a humanidade violadora.
Com o sorriso do mais orgulhoso e ilustre artista, o corpo de Darl ergueu-se sobre sua panorâmica tela. De suas costas, crescia um par de asas correspondente à cor predominante de sua paleta.
As chamas.
Então, superior a toda e qualquer existência mortal, voou por cima dos muros, para fora da cidade.
Para longe de qualquer olhar.
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