Era como um sonho.
Um sonho lúcido sonhado através do corpo de Darl, observado por seus olhos, sentido por suas mãos.
Mas era o sonho de outra pessoa.
Outra entidade.
Outra personalidade que gozava de prazeres impensáveis, de desejos incompreensíveis, de emoções alienígenas.
Que, mais do que tudo, regozijava da dominação.
A dominação sobre a vida, sobre a morte, sobre o ser e o não ser.
Que pintava de vermelho a terra como sua tela, pois a vida era seu pigmento preferido.
Que tinha em sua mão um frágil pescoço cujo dono lutava por sua liberdade, por sua sobrevivência. Mas permissão para tal não lhe era dada. Ele questionava sua autoridade.
Era uma criatura de pouca inteligência, mas capaz de compreender poder, de se curvar ao mais forte.
Mas isso não havia feito, pois via com olhos que enxergavam nada além da carne. E sua carne havia de ser oferecida para que, em fogo, seu pecado fosse purgado.
Em um instante havia uma criança aos pés de uma dúzia de goblins. No outro, seus papéis haviam sido invertidos. Não porque Darl levantava-se acima de seus corpos, mas porque era erguido por forças mais altas do que qualquer coisa que caminhava sob o sol.
Naquele momento, nem mesmo seu corpo pertencia-lhe.
Era como um sonho lúcido, no qual se tem o poder sobre todas as regras do mundo. Para criar, para extinguir, como uma vela acesa e apagada meramente pelo capricho de exercer domínio sobre sua combustão.
Mas esse capricho não era dele. Essa vela não era dele. Esse sonho não era dele.
Seus pés caminhavam por corpos já sem vida. Seus olhos continham lágrimas já secas. Sua pele ostentava feridas já cicatrizadas.
Suas mãos ensanguentadas produziam chamas das quais podia sentir o calor, mas não o queimar.
A vida do garoto já não mais corria risco.
Mas ainda havia outra alma com um papel a ser desempenhado e valor a ser preservado.
As pernas de Darl levaram-no de volta pelo caminho percorrido a pouco. Em um sentido, correra por sua vida; no oposto, caminhava por outra.
Até que seus olhos capturaram a imagem de um homem de joelhos, resignado a seu destino Era um dos fracos, e reconhecia seu lugar.
Sua cabeça estava baixa, aos pés de outra criatura que, por sua vez, erguia a sua, vitoriosa. E, além dela, ao alto levantava sua espada, pronta para pôr um fim à miserável existência diante de si.
Até que o corpo de Darl curvou-se e, com uma inércia além de sua movimentação atual, saltou para frente. Era repentino como o bote de uma serpente, certeiro como o rasante de um falcão.
O hobgoblin notou a veloz aproximação tarde demais, e foi incapaz de reagir antes de seu corpo ser lançado ao chão. No instante seguinte, um par de mãos flamejantes segurava sua cabeça. Sua pele esverdeada era consumida conforme sua carne ardia.
Ele lutava, agarrava os braços do garoto, mas era inútil. Era como esperar que a fresca brisa do entardecer movesse uma montanha, por mais que essa montanha tivesse a forma de um monte de areia pequeno o bastante para ser carregado na palma da mão.
Os lábios de Darl, novamente, contraíram-se em um sorriso.
Era o sorriso de alguém que se deleitava à dor daqueles que ousavam questioná-lo.
Darl jamais havia sentido-se tão poderoso antes.
Mas, novamente, esse poder não pertencia a ele. Apenas era canalizado por seu corpo, como uma jarra à qual a água não pertencia, mas era contida e transportada.
Ele não escolhia suas ações, mas sentia cada momento em sua carne.
E cada momento ficaria para sempre gravado em sua memória.
O hobgoblin parou de se mover conforme a vida esvaía de seus olhos. A criatura que mantivera a posição de superioridade instantes atrás, agora estava reduzida à imagem de um cadáver fresco, vítima da própria fraqueza diante das chamas que tomaram sua face.
E sobre essa casca vazia, pôs-se de pê o corpo do garoto.
Ele virou-se e seus olhos encontraram-se com os do homem derrotado, ainda de joelhos. Seu corpo estava coberto por feridas, sua respiração claramente dolorosa. Mas seu olhar, acima de tudo, mostrava puro espanto.
O corpo de Darl aproximou-se lentamente, até parar de pé diante de Gundar.
O ex-soldado apenas permaneceu na mesma posição. Se aos pés da fera já havia resignado-se à morte, poucas razões tinha para fugir diante do dragão.
Portanto, ele conteve-se a continuar de joelhos, e então ouviu as palavras que saíram da boca do garoto a quem, até então, protegera.
— Dumoru zum Shierd. Zem em dai Vitam ue.
E foi com essas palavras que a força deixou o corpo de Darl, seu corpo caiu diante de Gundar, e o mundo escureceu outra vez.
...
Darl estava de pé, descalço sobre um liso e gélido chão.
Para onde quer que olhasse, via apenas escuridão, ao ponto que não podia dizer quando tinha os olhos abertos ou fechados.
Aquele cenário, ou ausência de tal, era terrivelmente familiar.
Então, uma voz ecoou pelo vazio eterno.
— Yu faer du canornai uradest mais Words ue. Sarien.
Era uma voz carregada de poder, ao mesmo tempo que de calor e aconchego. Naquela escuridão desoladora, era a única coisa que traria conforto à sua alma perdida.
Então Darl andou em direção à voz, mas ela parecia inalcançável. Era como perseguir o sol à noite estendendo as mãos à lua.
Apenas então o garoto tomou consciência da futilidade de seus esforços, e cessou seus passos. Mesmo em meio à escuridão perpétua, virou-se e olhou para trás, onde uma escuridão diferente foi ao seu encontro.
Dela soprou um vento frio, gélido. Era insuportável. Sua presença fazia todo seu corpo tremer.
Ele não foi mais capaz de permanecer sobre suas pernas, e cedeu aos joelhos. Abraçou o próprio corpo, curvou as costas. Mas nada que fazia podia amenizar o frio.
Tinha certeza que congelaria, e sua alma para sempre perdida na escuridão estaria.
Até que um morno vento soprou.
— Un Mortul, anter Shierd seik mai Hraeer, au Vendar.
E esse vento morno expulsou o gélido, trazendo calor à escuridão.
Darl soube, então, que se desejasse uma vida sem dor, era seu calor que devia buscar.
E foi assim que abriu os olhos os quais, desta vez, viram um mundo além da escuridão.
E neste mundo havia terra com folhas secas e uma fogueira. E, a esta fogueira, sentava-se um homem grande em estatura, porém pequeno em espírito.
— Ah, você acordou...
— Ngh...?
Era noite. A lua brilhava forte no céu estrelado visto por entre as copas das árvores.
Darl pôs-se sentado com alguma dificuldade, e não demorou para se recordar dos eventos que precederam o pôr do sol.
Quando olhou para suas mãos, viu que estavam cobertas por sangue seco, assim como suas roupas. Era uma visão nauseante, pouco diferente do cheiro.
Ele procurou o homem que lhe protegera, novamente, em busca de conforto. Mas apenas encontrou o ex-soldado em uma situação igualmente precária — ou ainda pior, pois suas feridas, diferentes das de Darl, não se fechavam milagrosamente.
Era como se alguém além de Gundar estivesse a lhe proteger. Mas quem poderia ser? Yahlov, o guardião dos injustiçados e perdidos? Talvez alguma outra existência?
O dono daquela voz incompreensível?
Após observar novamente seus arredores, Darl notou que ainda estavam na floresta.
— Aqui não é mais tão fundo na floresta, mas também fica longe da estrada. —, como se soubesse o que passava pela mente do garoto, Gundar explicou. — Precisei te arrastar o caminho todo.
"Me desculpe" era o que Darl queria responder, mas não encontrou forças para tal.
Cada momento em que o soldado passou em sua presença, apenas tivera mais problemas. Fosse por lhe alimentar, pela cadeira quebrada, por ter que fugir de sua cidade, ou pela morte de seu amigo.
Era como se o garoto trouxesse destruição consigo por onde quer que andasse.
Ele olhou para suas mãos cobertas por sangue novamente, e a palavra "destruição", então, também ressoou com um sabor diferente.
— Lembra de alguma coisa de mais cedo?
— ... Sim. —, não havia razão para mentir.
Gundar deixou escapar um longo suspiro.
— Parece que você não morre não importa o que acontece, hein? —, havia alguma forma de sarcasmo em sua voz. — Acho que você é mais diferente de qualquer um de nós do que eu poderia imaginar...
Não lhe restava dúvidas quanto a isso.
Era perseguido por aquela voz, de suas mãos ferviam chamas, de sua cabeça crescia o cabelo que lhe fez esconder-se o tempo todo.
Talvez o tenente que lhe chamara de "aberração" estivesse correto de mais formas do que pensava.
Ironicamente, no dia em que acordara na casa de Gundar pela primeira vez, luas atrás, ouvira palavras completamente contrárias.
— Você... não pode substituir eles... —, Gundar sussurrou algo, talvez apenas para si, baixo demais para ser propriamente ouvido.
— Huh?
— Não é nada. Se estiver com sono, é melhor deitar e dormir. Amanhã vamos andar cedo.
Mais do que sono, no momento, sentia fome. Nada haviam comido desde manhã, quando adentraram as partes profundas e perigosas da floresta.
Os suprimentos que trouxeram da casa do velho Rognir já haviam esgotado-se, e viviam meramente do que encontravam no caminho.
Sua única opção era esperar que o sono viesse a se tornar mais forte que o seu estômago vazio, e encontrar comida logo cedo no dia seguinte.
Esperar.
Mas pelo que ele realmente esperava?
Por mais uma chance de comer no dia seguinte? Pelo momento em que chegariam ao seu destino, preferencialmente antes do inverno?
Era difícil para Darl dizer se possuía algum desejo, algum objetivo. Cada dia era vivido olhando apenas para o presente.
E o presente era, de várias formas, desagradável.
...
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