Por horas e horas, seguiram seu caminho. Gundar levava os olhos ao céu com uma frequência cada vez maior. Seu rosto podia não indicar, mas devia estar muito inquieto.
Mais uma vez, fizeram uma pausa para que escalasse uma árvore. Tendo julgado ser uma boa ideia para não ser surpreendido por trás, Darl apoiou suas costas ao largo caule. Podia sentir a aljava que carregava pressionar sua pele. A todo momento, carregava arco consigo.
Infelizmente, não era exatamente bom com a arma, mas também não questionava a escolha do soldado. Mesmo que Gundar pudesse fazer melhor uso do arco, tinha a sensação que entendia a razão.
Além do arco, o velho Rognir deixara outras duas armas com a dupla de fugitivos: a adaga que Gundar carregava, e a espada presa ao cinto de Darl.
Por mais que tentasse consolar-se com o fato de ter em sua posse duas armas, das quais uma era a de maior lâmina, era inútil. O único guerreiro hábil do grupo tinha consigo apenas uma adaga que, após uma melhor inspeção, o garoto concluíra ser a faca usada anteriormente para preparar o cervo caçado.
Não importava como pensasse, só podia concluir que aquilo estava errado.
O garoto aguardou, como na última vez, ainda atento a seus arredores. Este não era o momento para ter vergonha de gritar. Na verdade, não conseguia lembrar da última vez que levantara a voz.
Um estalo estranho foi ouvido, seguido por um farfalhar diferente. Folhas secas pareciam ser esmagadas. Seus pés estavam fixos em sua posição, e Gundar ainda fora de vista.
Havia grande chance de ser apenas um animal, mas Darl estava por conta própria desta vez.
Seja lá o que fosse, não era apenas um — os sons pareciam multiplicar-se. Eles moviam-se e espalhavam-se. Pareciam vir de trás.
O garoto já era tão mestre de sua respiração quanto do ritmo de seu coração. Talvez se apoiar na árvore houvesse restringido as direções para as quais podia olhar. Ele apenas criara um ponto cego para si mesmo.
Com a mão trêmula, Darl retirou uma flecha de sua aljava. Pôs o projétil de madeira no arco e puxou-o.
Ele não podia morrer, até mesmo Gundar confirmara isso. Não precisava virar-se e confirmar suas suspeitas. Não precisava preocupar-se.
Entretanto, seu coração e mente discordavam completamente, e seu senso de responsabilidade parecia estar ao lado do coração desta vez.
— Gundar... —, chamou, mas sua voz falhou. Foi muito baixo.
Levantar a própria voz era uma atividade difícil. Paralisado, firme junto ao áspero caule, sentiu que estava sendo cercado.
— Gundar! —, enfim, gritou. Dificilmente conseguiria dar um grito tão bom novamente tão cedo. — Alguma coisa tá cercando a gente!
No mesmo instante, como em resposta às suas palavras, algo saltou dos arbustos.
Não apenas dos lados, mas da frente e, muito provavelmente, também de trás, revelaram-se medonhas criaturas.
Sua estatura era baixa, mas seus rostos pareciam mesclar aquele de um homem com o de uma fera. Sua postura era curvada, membros esparsos para os lados. Sua asquerosa pele tinha a cor de musgo, e uma textura como a da terra. Em suas mãos com garras havia armas. De suas cabeças cresciam ralos cabelos negros e um par de longas orelhas.
Darl não ousou olhar para cima, mas podia ouvir os galhos que se moviam conforme Gundar descia. Ainda assim, o soldado podia chegar ao chão muito tarde. O garoto não pôde deixar de pensar que seu grito adiantou o ataque.
A criatura exatamente à frente do garoto estava próxima o bastante para até o mais amador dos arqueiros atingi-la sem problemas. Foi com esse pensamento que soltou a flecha.
E errou seu alvo.
A expressão do ser humanoide ao seguir o projétil com os olhos, que voou por seu lado e pousou entre as plantas, pareceu mudar. Se suas feições fossem mais humanas e menos bestiais, talvez, fosse possível identificar uma expressão de deboche.
Darl dificilmente poderia julgá-lo.
Armada com uma haste de madeira com uma pedra afiada amarrada em sua ponta, a criatura avançou. Ela não tinha pressa, apenas caminhava adiante em uma postura que podia ser julgada apenas como agressiva, apesar do ritmo casual.
Era uma situação que Darl já havia vivenciado antes. A criatura humanoide era como um lobo que empurra a presa para uma emboscada. Ela esperava que garoto tentasse fugir para longe, apenas para cercá-l com seus companheiros. Com isso em mente, Darl preparou outra flecha o mais rápido possível.
Provavelmente por notar a atitude hostil de sua presa, a criatura de orelhas longas saltou em um ataque violento.
O garoto não pensou em mais qualquer coisa. Apenas fechou os olhos e desferiu o melhor chute que pôde.
Quando pôs confiança em sua visão novamente, viu que o atacante contorcia-se no chão, alguns passos de distância.
Uma pitada de alívio foi o que sentiu, apenas para ser sobreposta por uma dor perfurante na têmpora.
Darl levou a mão à cabeça por instinto, olhos fechados. Quando os abriu novamente, estava desnorteado demais para saber para onde olhar.
Sua mão estava úmida, e quando a tirou do lado da cabeça, viu estar coberta de sangue.
Era o seu sangue.
Mas de onde?
A criatura adiante sacudiu a cabeça e se pôs de pé novamente.
Não havia tempo para pensar. Darl devia pegar outra flecha. Mas, antes que pudesse...
— Au!
Sentiu algo ferir seu ombro seguido pelo som de folhas secas. Havia sido atingido por uma pedra, que caiu no chão ao seu lado.
Da direção que viera estava mais uma das criaturas, com outra pedra na mão de longas unhas pouco diferentes de garras.
Quando outra pedra foi lançada, pôde fazer pouco além de cobrir o rosto com os braços.
A pontada de dor que seguiu o ato mostrou haver sido a escolha certa a de fazer, pois a próxima pedra atingiu seu braço bem diante dos olhos.
Mesmo assim, aquelas pequenas pedras, atiradas por pequenas criaturas, machucavam.
Então o mesmo foi sentido de suas costas. Obviamente, não era apenas uma delas que atiravam os projéteis.
Quando Darl espiou por sobre seu braço, a criatura que havia derrubado já se aproximava novamente, ainda mais rapidamente. Estava cercado, por conta própria, atingido por uma saraiva de pedras, sangrando, com lágrimas escorrendo.
E um gemido grave foi ouvido seguido por um vulto e um baque, e outro gemido agudo.
Um grande homem havia caído sobre uma pequena criatura.
Suas costas estavam viradas para o garoto, mas, por seus movimentos, e pelos estridentes sons de agonia que acompanhavam, esfaqueava a criatura sob si.
Darl estava chocado demais para se mover. Quando o homem pôs-se de pé, olhou para os lados apenas por um breve momento. Sua respiração pesada dava-lha um aspecto mais bestial do que o do monstro que jazia a seus pés em uma poça do próprio sangue.
Seu peito moveu-se, sangue foi expelido de sua boca por entre afiados dentes agora manchados de vermelho.
Uma sensação amarga subiu à boca do garoto, mas logo foi engolida junto ao alarmante som de folhagens dos lados. Quando Darl seguiu os sons, notou que o grupo que lhes cercava já havia desaparecido.
Então, o latejamento que vinha de sua cabeça tomou seu foco. Darl tentou examinar a ferida novamente, mas assim que deus dedos tocaram o local, foi forçado a os retirar em seguida com um gemido.
— Machucado?
— Hã?
— Você tá sangrando. Mas não é grave, pelo visto. Vamos.
Gundar parecia ter a intenção que desaparecer tão rápido quanto aquelas baixas criaturas. Ele limpou sangue de sua adaga no tecido da capa enquanto olhava para o céu e, sem espera, começou a andar. Darl, sem tempo para refletir sobre os últimos momentos, seguiu.
— O que eram...
— Orks. Goblins. Como quiser chamar.
O soldado sempre passara a impressão de ser um homem de poucas palavras. No momento, contudo, parecia querer ser mais breve ainda. Devia estar com muita pressa, o que era compreensível, apesar de andar a passos não exatamente largos.
— Seu pai nunca te falou deles? —, estranhamente, perguntou. Nem ao menos olhou para trás.
— Ah... Sim... Sim, eu acho... Mas orks não eram grandes?
— Sim. Tem gente que chama os pequenos de goblins e os grandes de hobgoblins. Ou orks. Faz pouca diferença.
O garoto não pôde deixar de pensar que a diferença era importante. Seria como confundir um falcão por uma andorinha.
Novamente, de toda forma, Darl optou por não questionar.
Era estranho como a questão de nomenclatura pareceu tornar-se mais importante que o medo de os goblins, ou orks, aparecerem novamente.
Talvez não haver razão para temer a morte tenha alterado sua forma de ver o perigo.
Mas, se havia uma variação maior daquelas criaturas asquerosas e violentas, porém pequenas, existia a chance de ela aparecer?
...
Com passos apertados e sentidos atentos, ambos continuaram. Para qualquer lado que olhasse, Darl via apenas árvores e arbustos até onde a vista alcançava. Guiavam-se apenas pelo sol, mas o garoto já não confiava em sua interpretação da posição em que estavam. Apenas depositava sua fé no homem que andava adiante.
Às vezes o silêncio cantava com pequenos animais, outras era quebrado apenas pelo farfalhar das folhas ao vento.
Ou assim fora até o momento em que a respiração de Gundar parecia pesada demais para não ser notada. Era semelhante ao modo como respirava no momento que havia pulado, ou caído, sobre um goblin — ou ork.
A figura do homem estremecia sempre que seu peso passava de um pé para o outro. Cada suspiro parecia carregador consigo a dor da inspiração que a precedia.
O ritmo que andavam era desconfortável até para Darl, cujos pés começavam a doer e joelhos a pesar. Gundar tinha pernas mais longas, mas parecia fazer um esforço desproporcional para cada passo.
Novamente o garoto tentou analisar suas costas, mas dificilmente um pouco de sangue penetraria a capa que cobria aquelas largas costas. Isso é, se o que lhe causava tanto desconforto era a ferida de flecha do outro dia.
Mas o que poderia ser além disso?
...
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