Gundar e Darl caminhavam há quase duas semanas. Seguiam ao norte por uma estrada cercada de ambos os lados por densas florestas. Era tão estreita que provocava a impressão de que as árvores engoliriam-lhes.
Não era como se, desde que deixaram o vilarejo de Rognir, a paisagem não houvesse mudado. Na realidade, duas vezes o cenário verde escuro havia sido trocado por outro claro, com largos espaços abertos cobertos por baixa grama. Contudo, tais vistas agora podiam viver apenas gravadas na memória, pois o novo horizonte logo dera lugar novamente às florestas.
Era razão para refletir sobre se aquelas estradas eram realmente usadas. Na verdade, para alcançar alguma, precisaram seguir metade de um dia a oeste a partir do vilarejo vazio. Talvez pudessem alcançar outra mais rapidamente se seguissem ao sul, mas havia o risco de encontrar o acampamento ao qual dificilmente seriam bem-vindos.
Em uma semana, as provisões trazidas do vilarejo inabitado haviam exaurido-se. Entretanto, puderam manter-se razoavelmente bem com os recursos fornecidos pela natureza abundante da área. Com isso em mente, o excesso de vegetação dificilmente era razão para se queixarem.
Com o arco, por vezes, Gundar abatia algum pequeno animal. Contudo, na maioria das ocasiões, alimentavam-se com frutos, ovos de pássaro e até algumas plantas e cogumelos conhecidos à beira da estrada.
Apesar da facilidade para encontrar alimento naquelas terras, as estradas desertas causavam uma sempre presente fobia. Por mais que, afortunadamente, não houvessem encontrado um animal perigoso sequer, as florestas densas de ambos os lados podiam ser um perfeito esconderijo.
Além disso, quanto mais se aproximassem da civilização, maior seria a chance de se depararem com alguma pessoa. Ladrões seriam dificilmente avistados naquelas estradas desoladas, e pouco possuíam para ser roubado além de suas armas velhas e suas próprias roupas. Como os reinos vizinhos mantinham relações mutuamente hostis, viajantes também não apareceriam.
Entretanto, justamente em razão da guerra, tropas e mensageiros poderiam cruzar os caminhos entre os reinos. Dois viajantes solitários seriam suspeitos o suficiente por si, e o que resultaria se alguém visse o cabelo de Darl não poderia positivo. Assim, o garoto concordara em rapidamente esconder a cabeça com sua capa caso avistassem alguém na estrada, mesmo que não entrem em contato.
Por vezes, algumas velhas placas eram encontradas, normalmente onde o caminho dividia-se. Elas possuíam textos talhados que Darl era incapaz de ler, e algumas até mesmo figuras. Uma, por exemplo, tinha um pássaro gravado, enquanto outra algo que se assemelhava a uma parte do corpo humana que não parecia exercer uma função clara em uma placa.
As estradas eram razoavelmente planas, de poucas bifurcações e com poucas curvas. Por isso, a vista alcançava longas distâncias no horizonte, apesar da vegetação abundante.
Um dia, este horizonte revelou a longínqua silhueta de um estandarte. Antes mesmo de as pessoas que o erguiam subirem à vista, Gundar concluiu serem soldados.
Ambos deixaram a estrada e ocultaram-se na vegetação ao lado. Adentraram apenas o suficiente para não correr o risco de ser vistos, e lá permanecem, entre os arbustos e caules, a esperar. Seria mais perigoso se andassem no caminho paralelo em meio às plantas.
Sons de passos foram ouvidos. Muitos deles.
Apesar de não apressados, e razoavelmente distantes, podiam ser ouvidos com clareza. Eles seguiam ao sul, mas Darl não sabia de onde vinham, ou para onde iam.
Quando já ecoavam apenas na distância, os fugitivos retornaram à estrada arenosa. O grupo de soldados estava distante neste momento, porém próximo o suficiente para seu número ser estimado em algumas dúzias.
O brasão do verde estandarte que balançava sobre suas cabeças também estava visível. Cercada por um par de chifres de cervo, havia uma espada apontada para o alto, onde voava um reluzente olho dourado.
— Estranho... —, meditativo, Gundar sussurrou para si.
— O... quê? Sabe quem eles são?
— Sim. Mas vamos continuar logo. Não quero que um deles olhe pra trás e veja a gente.
Darl apenas assentiu e obedeceu. Ainda guardava as novas dúvidas consigo, apesar de optar por não fazer outra pergunta.
Não era como se carecesse de curiosidade, mas o sentimento antecipado do fardo de usar a voz era de grande desagrado. Em parte, talvez, fosse resultado da expressão fechada do soldado, que por si também fazia o garoto fechar-se.
Ou por temer ter sua curiosidade satisfeita novamente.
— Aqueles soldados —, explicou Gundar, enquanto andava, mesmo sem haver sido questionado. — são do reino de Alken. Estamos andando no seu território agora mesmo. Esse pessoal se dedicou a uma missão de "purificação" nos últimos tempos. Desde a Praga, pra ser exato. O motivo e como fazem isso não preciso explicar. É o mesmo de Elogrand e Nouwer.
— E... pra onde eles tão indo?
— É isso que quero saber. A não ser que estejam indo pra algum vilarejo de Alken no caminho, Nouwer e Elogrand são os únicos reinos ao sul da... qui... —, o soldado teve suas palavras interrompidas por tosses.
Quando aparentaram cessar, retornaram mais fortes. Seu tom soava doloroso, mas, por fim, Gundar voltou a retirar a mão da boca. Parecia possuir novamente o controle sobre sua respiração.
— ... Soldados... —, precisou parar e respirar fundo para continuar. — Eles normalmente carregam estandartes quando vão pra alguma expedição. Alken sempre foi indiferente com Nouwer, mas não sei que relação tem com Elogrand. Mas, se esses dois fizerem uma aliança, com certeza a gente vai perder a guerra.
— "A gente"...? —, não importava como olhava, parecia haver algo fora do lugar naquela afirmação.
Na realidade, Darl não havia pensado muito antes de dar voz à sua última dúvida. Era mais como se sentisse a necessidade de fazer o soldado continuar a falar. Ainda assim, de alguma forma, no final, talvez apenas quisesse dizer que não desejava ser inserido naquele grupo.
Termos como "nós" não soavam como deveriam.
— Nouwer. Bem... —, Gundar deixou escapar um suspiro e deu de ombros. Pela primeira vez, ambos pareciam compartilhar da mesma linha de raciocínio. — Não é da nossa conta agora.
Talvez por um pressentimento, ou apenas mais um de seus atos executados sem refletir com antecedência, Darl deixou o soldado caminhar um pouco à frente. Suas costas tornaram-se visíveis.
Quando retornavam à casa de Rognir, dias atrás, o soldado possuía uma ferida de flecha ainda aberta. Se seu pulmão fora perfurado, e se houvesse alguma complicação, as tosses poderiam estar relacionadas a isso.
Contudo, havia uma camada a mais de roupas sobre o homem, anteriormente possuídas pelo velho, a cobrir suas costas. Então era impossível confirmar suas suspeitas.
...
Em uma manhã, Gundar e Darl depararam-se com um trecho da estrada com um estandarte fincado ao chão de cada lado. Visto que conhecia apenas dois, demorou pouco para o garoto reconhecer seus brasões — eram os de Alken.
Logo adiante, ao norte, podia-se ver que a longa floresta acabava. Ela dava lugar a um espaço aberto, mas diferente dos vistos anteriormente.
Eram extensas terras agricultadas e, mais além, uma larga muralha.
Apesar de sua finalidade ser óbvia, Darl precisou refletir um pouco sobre o que estava diante de seus olhos. Era claro que encontraram civilização, mas era a parede pálida como as nuvens de um dia ensolarado que parecia fora de lugar. Ela não era composta por peças de madeira como as que cercavam o castelo e a cidade de Nouwer.
— É aqui que a nossa viagem fica perigosa. —, declarou Gundar, com os olhos no horizonte. — Aquela é Alkerfell, a capital do reino de Alken. Vamos ter que dar a volta pela floresta. Por dentro dela.
Não era a primeira vez, mas algo parecia fora do lugar.
— Mas se a gente não ir tão fundo... não vai ser tão perigoso, certo?
— É verdade, mas a gente seria fácil de ver. Qualquer pessoa caçando pela região poderia nos encontrar, e nem preciso dizer o que ia vir depois. Sem falar que todo mundo sabe que os bosques de Alken são mais ricos em caça que qualquer outro, então caçadas são muito frequentes aqui. —, o soldado respirou um pouco antes de continuar. — Vamos ter que ir por onde ninguém em plena sanidade iria: as profundezas da floresta.
Tanto o pai de Darl quanto os dois soldados haviam lhe contado histórias sobre as coisas terríveis que podem ser encontradas por aqueles que ousavam aventurar-se nas densas florestas: criaturas tementes à luz do sol, astutas como um homem, fortes como um urso e que se alimentam de carne humana.
Pouca reflexão era necessária para concluir que essa ideia poderia ser facilmente julgada como tola. Ou pior.
Simplesmente suicida.
Essa mesma ideia fez o garoto estremecer. Ele pôde apenas esperar por alguma palavra de conforto ou esperança, mas suas expectativas foram esmagadas.
— Darl, ouve bem o que vou dizer. —, Gundar virou-se para o garoto e, fixo em um austero olhar, continuou. — Se alguma coisa acontecer comigo, corre o mais rápido que puder para o norte, sem olhar pra trás. Você não vai morrer, não importa o que aparecer, eu sei disso, mas não posso dizer o mesmo de mim. Continue seguindo fazendo tudo que te ensinei. E mais uma coisa. —, levanta dois dedos — Vão ter duas cidades no seu caminho depois dessa: a primeira você tem que evitar, igual agora, mas a segunda vai ser o seu destino. É o o único lugar em que as pessoas vão te tratar bem. Entendeu?
— S-Sim... Entendi.
"Tratar bem". A afirmação ecoou na mente do garoto com um sabor curioso.
O soldado suspirou e sua postura cedeu levemente. Ainda assim, não era como se o peso sobre seus ombros houvesse reduzido.
— Agora, quando a gente estiver fundo, aja como se estivesse sendo caçado; como uma presa. Não faça barulho e olhe para todas as direções antes de dar cada passo. Se vir ou ouvir alguma coisa estranha, não fica com medo de me avisar, mesmo se acabar sendo nada.
...
Gundar segurava-se aos galhos de uma árvore e apoiava os pés em seu caule.
Como previamente combinado, ele estava à procura de um ponto alto o suficiente para ver a cidade de Alkerfell, e julgar sua distância dela. Guiavam-se pelo sol, cujos raios que caíam por entre os ramos verdes e amarelados tornavam-se mais fracos conforme adentravam mais fundo na floresta.
Não andavam há muito tempo, e o dia estava apenas em sua metade, mas o sol já quase desaparecia entre as folhagens. Apesar de grande parte das árvores já não conter mais muitas folhas, as que se mantinham verdes durante todo o ano eram o suficiente para ocultar o brilho do dia.
Darl vivera a maior parte de sua vida nos bosques, e mesmo assim julgava a densidade desta vegetação impressionante.
Os ecos dos movimentos de Gundar desapareceram pouco depois do homem sair de vista por entre os galhos e folhas da alta árvore.
Fosse para cima ou para o horizonte, a visão não ia longe. O suave farfalhar da vegetação, acompanhado pelo canto de pássaros e insetos, era tudo que pode ser ouvido.
Tal suavidade, entretanto, não era refletida no coração do garoto.
A baixa visibilidade e os sons da natureza selvagem eram uma fonte de intensa antecipação. A qualquer momento, de qualquer direção, alguma fera podia saltar dos arbustos.
Estava úmido e o vento soprava frio. O outono encontrava seus últimos dias.
A floresta era como Gundar dissera — repleta de cervos. Embora nenhum pudesse ser visto no momento, até o ponto que pararam à árvore, avistaram dois desses animais, que permaneceram pouco tempo em seu campo de visão antes de lhes notar e fugir.
O soldado havia dito que esta poderia ser uma ótima chance para se reabastecerem com mais alimento, mas deviam priorizar deixar a floresta o quanto antes. O garoto considerou tentar coletar ao menos alguns cogumelos que crescessem nas proximidades enquanto Gundar não retornava, mas optou por permanecer no local.
Em algum momento, repentinamente, um estalo foi ouvido. Darl entrou em completo alerta no mesmo instante, mas não demorou para notar que o som vinha de cima.
Era apenas o soldado, que descia da árvore.
Com um gemido, o homem pôs os pés no chão.
— Talvez eu devesse fazer você subir. —, queixou-se, ofegante. — Aliás, já nos afastamos o bastante da cidade e dos campos. Hora de seguir a nordeste.
...
Comments (4)
See all